Pedras são colocadas para vender os lugares.

Boa parte dos problemas da humanidade tiveram início quando, certa feita, um cidadão resolveu decretar que a partir daquele momento, o metro quadrado que o cercava, não mais seria um bem coletivo, e sim, posse única e exclusiva sua. Eis que surge a propriedade privada.

Talvez seja um ímpeto inato ao ser humano. Imaginar-se como extensão dos seus bens materiais, lhe dando sensação de poder. E isso dialoga intimamente com seres de todas as classes e estirpes, guardada as devidas proporções. Mas tudo gira em torno da acumulação do vil metal, ou, em outros casos, flerta com a necessidade de sobrevivência. Seja na terra usurpada, no terreno invadido, no imóvel ocupado, nas vagas de automóveis em “terreno privado” dos ditos guardiães das ruas – flanelinhas – ou, em um caso que iremos abordar por aqui: os mercadores de vagas na fila de atendimento da Caixa Econômica de Ilhéus.

Em contato com a redação do Ilhéus 24h, uma cliente Caixa denunciou que algumas pessoas decretaram como área particular o entorno da agência bancária, localizada no calçadão da Marquês de Paranaguá, Centro. Ela relata que em meio a tentativas de intimidações, e até ameaça de arrastões, são eles que definem o local onde as pessoas vão ficar.

“É uma falta de respeito. Chegamos por volta das 4h da madrugada, e esse pessoal que vende lugar na fila é quem define onde devemos ficar, porque eles marcam os lugares. Isso é um absurdo. A polícia tem que interceder”, desabafa.

A cliente do banco ressalta que as pessoas que se esforçam para chegar cedo, acabam ficando por último porque a fila já está toda loteada, e se alguém resolve reclamar, acaba recebendo ameaças. Segundo ela, a ausência de policiamento no horário, contribui para o clima de insegurança.

GERENTE –  Ouvido pela reportagem, Fabrício Pablo, gerente da agência Caixa onde a situação ocorre, afirma categoricamente que trata-se de um caso de polícia, e que ele mesmo já se indispôs com um meliante na porta do banco. De acordo com ele, o caso na época foi parar na delegacia.

Porém, ressalta o gerente, no outro dia o mesmo cidadão estava novamente na frente da agência, comercializando os lugares.

“Com a ajuda da PM tiramos as marcações, só que, infelizmente, só tem meliante vendendo vaga, porque tem gente que compra”, resume Pablo.

PRÁTICA COMUM – Para Rodrigo Cardoso, presidente do Sindicato dos Bancários de Ilhéus, a reclamação do cliente é justa. Ele frisa que vender lugar na fila não parece uma prática protegida pela lei, “mas, infelizmente, tem sido muito comum nesse Brasil de tantas informalidades”.

“Quem nunca ouviu falar de agentes públicos que fazem da manipulação de vagas nas filas do SUS, por exemplo, um instrumento para a obtenção de ganhos políticos? Infelizmente é uma cultura muito comum”, afirma o líder sindical.

Cardoso ressalta que cabe à administração da Caixa, tomar providências para evitar a prática, e aos agentes de segurança pública, atuar para evitar eventuais práticas ilegais