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Nas vésperas do dia 20 de novembro de 2020, dia nacional da Consciência Negra, um homem negro foi assassinado em um supermercado na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. As cenas chocantes correram as redes sociais e mostraram parte da ação dos dois seguranças do Carrefour, um deles PM, que mataram covardemente João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos. 

A justificativa dada pelos seguranças foi a de que Beto, como era conhecido, teria discutido com um funcionário do supermercado e a ação teria sido para “conter” o homem revoltoso. A mesma narrativa foi utilizada por diversas vezes em diversos outros casos e, como sempre, os órgãos responsáveis por punir os infratores, na verdade fortalecem essas ações e procuram meios de justificar o racismo estrutural como algo normal. 

O Brasil sempre fugiu da discussão sobre o racismo, o debate sempre foi jogado para debaixo do tapete. A criação de um dia nacional para falar sobre o assunto já é um passo interessante, mas ainda muito raso. Por estes motivos nós continuamos a ver casos como o de João Alberto. 

No último dia 11 de novembro, outro caso de racismo chocou as redes sociais. Dois angolanos foram espancados por seguranças na cidade de Maringá, no Paraná, e conduzidos desacordados para fora de um estabelecimento. Por sorte, a dupla não teve o mesmo destino de João Alberto. 

No dia 14 de fevereiro do ano passado, Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, 19 anos, foi morto por um segurança do supermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ao “conter” o jovem negro, ele deu uma gravata e jogou seu peso sobre ele. No vídeo, que circulou pelas redes sociais, testemunhas alertaram que Pedro estava “sufocando” e ficando “roxo”, mas a sessão de tortura continuou.

Na manhã de 16 de março de 2014, Cláudia Silva Ferreira morreu, vítima de uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro no Morro da Congonha e teve seu corpo arrastado por uma viatura policial nas ruas da cidade. Um dos envolvidos na morte de Cláudia foi recentemente nomeado a um importante cargo no governo do Rio de Janeiro.

Casos como os citados anteriormente mostram como ainda somos rasos no discurso antirracista, como ainda é necessária muita luta para evoluir neste aspecto. A manutenção da estrutura racista que foi criada após o “fim” da escravidão é o que faz pessoas continuarem a considerar o negro como uma ameaça para a sociedade. Quando um programa de treinee criado para jovens negros desperta o ódio de parlamentares, como no caso da Magazine Luiza, é sinal de que o sistema como um todo luta para impedir que estes jovens ascendam na sociedade e continuem na marginalidade.

Em pleno século XXI ainda vivemos em um contexto que continua reproduzindo um racismo estrutural em todos os seus segmentos. Até o esporte, que sempre esteve recheado de ícones negros como Pelé, Usain Bolt e Michael Jordan, ainda sofre com demonstrações racistas a todo momento. O site Observatório da discriminação racial no futebol contabiliza e divulga relatórios anuais com os casos de racismo que sejam relacionados ao esporte no Brasil.

É essencial observar nomes gigantes da cultura pop e do mundo esportivo, como Beyonce e Lewis Hamilton, dando a cara para apoiar os movimentos negros, mas ainda é mais essencial que nós possamos refletir sobre o racismo que está dentro de cada um de nós e lutarmos para combatê-lo. 

O dia 20 de novembro foi escolhido por ser a data em que morreu Zumbi dos Palmares, um ícone da luta e resistência negra que passou pela nossa história. É preciso que cada um de nós tenhamos um pouco mais de Zumbi e Dandara dos Palmares, de Luiz Gama, de José do Patrocínio, de André Rebouças e tantos outros importantes nomes da nossa história que lutaram contra a opressão. 

Que este dia sirva de reflexão e que nós possamos vislumbrar um mundo futuro em que os nossos jovens não mais sofram com o medo da opressão apenas pela cor da sua pele. Por uma sociedade que entenda que não basta não ser racista, mas que é preciso ser antirracista. 

Por Leslie Sá