Advogado, antigo morador e frequentador da praia do norte.

Entra ano e sai ano a zona norte de Ilhéus continua abandonada. Trava uma luta incessante contra a força do mar. A faixa de terra vem perdendo as batalhas até então enfrentadas, pois a cada ciclo de 365 dias, há perda, em que pese a luta dos moradores.

Falar sobre danos materiais reparáveis pode parecer insensibilidade ante a pandemia do covid-19 que já ceifou quase 110 mil mortos – em Ilhéus 191 mortos. Famílias destruídas e enlutadas, amizades que se perdem. São pais, mães, filho(a)s, avós, neto(a)s, amigo(a)s que partiram para sempre deixando apenas a saudade.

A aparente insensibilidade só reside apenas quando olhamos do ponto de vista individual, pois perder um imóvel jamais pode se comparar com o óbito de um ente querido. Contudo, há um ponto em comum entre estes dois fatos. A omissão, irresponsabilidade e incompetência daqueles que são eleitos para olhar pela coletividade. Sob esse prisma, todos os afetados são vítimas.

É imperioso afirmar que diversas famílias perderam suas residências e fontes de subsistência. Não é de hoje que o abandono e a irresponsabilidade por parte dos “nossos” governantes aportaram no São Miguel e São Domingos, em Ilhéus.  

Nesse ponto quero relatar que foram anos, a cada maré alta, brigando contra o mar para evitar que a casa onde residi minha infância, adolescência e parte da vida adulta fosse destruída pela força das ondas. Estas batalhas não vêm de agora. Luta-se junto às autoridades para que tomem providências. Pedidos e mais pedidos feitos. Notícias do fato apresentadas ao MPF e nada foi capaz de fazer com que esses desgovernos olhassem para parte deste litoral ilheense.

Lembro-me quando eu e minha família fomos morar na praia do norte. Tinha eu uns 11 anos de idade. Eu e meus irmãos tínhamos a praia como parque de diversões. Pegávamos “jacaré”, jogávamos bola com a turma do Sete, da Vila Lídia e do Iguape, vôlei de praia e tudo mais que uma praia pode propiciar. Lembro-me que nesta época o coletivo passava na porta de minha casa e ainda tínhamos mais uns 20 metros de distância da maré cheia. Sabíamos, inclusive, que a margem de terra à frente de nossa casa já fora bem maior.

Como homem sempre atento à natureza, meu pai, desde os primeiros avanços da maré, passou a buscar os órgãos públicos (Prefeitura, CODEBA, MPF, etc.). Todos sabiam a única para aqueles avanços do mar ano após ano. PORTO DO MALHADO. Desde que se aumentou o espigão, cortando-se os caminhos das correntes, a Avenida Soares Lopes virou um depósito de sedimentos e o São Domingos e São Miguel área de erosão.

Foram anos buscando uma solução para o problema que se arrastava. Fizeram uns espigões “meia-boca” e um enrocamento com telas que não suportou algumas marés altas e se desmanchou. Depois disso nada mais foi feito. Apenas moradores que detinham alguma condição conseguiram proteger suas residências, mas chega um momento que tudo que pode ser feito não é suficiente, pois demanda investimentos altos e que grande parte dos moradores não possui.

Hoje o que se observa é a degradação de uma importante faixa do nosso litoral. Donos de cabana perdendo suas fontes de renda e moradores perdendo casas e uma total INCOMPETÊNCIA do poder público e omissão de outras tantas autoridades.

Há esperança? Assim como a história da ZPE, dizem que um grande porto será construído e é óbvio que para proteger tamanho empreendimento, as autoridades públicas geralmente vendem até suas genitoras. Espera-se que após as vender, os moradores daquela região sejam beneficiados por tabela, já que para estes, até então, só omissão e refugos de pedras que, retiradas da nova ponte, foram jogadas lá para quem pudesse pagar máquina.

Também neste ponto meus pais me servem de exemplo, pois preferiram pagar por alguns metros de pedra e horas de máquina a obter qualquer beneplácito que não fosse extensível a todos os moradores. Para eles, perder a casa onde criaram seus filhos é um dano reparável. Reconstruiremos. Só espero que não me apareça o IBAMA para dizer que estamos invadindo área de marinha, pois nisso são experts, mas pare evitar o dano ambiental originado pelo porto, são mansos.

Por fim, cabe aos moradores destas áreas dá a devida resposta.