Coringa chegou aos cinemas nesta quinta-feira (3). FOTO: Divulgação DC/Warner

O Blog Ilhéus 24h chega com uma novidade para os nossos leitores, a partir de hoje vamos testar uma nova sessão no nosso site. A sessão de indicações trará críticas sobre filmes e séries para você acompanhar durante o final de semana. A depender da repercussão, a sessão pode virar fixa com publicações mensais ou quem sabe até semanais. Para começar esta jornada a escolha foi pelo “Coringa”, um dos filmes com maior hype no ano de 2019 e que, finalmente, chegou aos cinemas brasileiros nesta última quinta-feira (3).

A DC, em parceria com a Warner, lançou o seu mais novo longa e uma das maiores apostas para o ano. Coringa apresenta a história de um dos vilões mais famosos das histórias em quadrinhos e o astro Joaquim Phoenix (Gladiador, Johnny & June, Ela) aparece espetacularmente dando vida ao personagem que agora ganha um nome de Arthur Fleck, diferente de outros que já lhe foram dados ao longo da sua trajetória nas HQ’s. Um longa que chega, com toda certeza, para criar polêmicas e quem sabe até brigar pelo Oscar.

Todd Phillips, pelo visto, achou o Coringa de Christopher Nolan (vivido por Heath Ledger) pouco sombrio e resolveu aumentar o tom neste longa. A ambientação nos anos 70 faz com que o filme fuja de comparações com o DC Universe, que até agora não possui ligações com este filme. O tom do filme beira a insanidade que o personagem principal carrega e isso é muito interessante.

Um breve aviso a partir daqui, ESTE FILME NÃO É PARA CRIANÇAS, o nível de violência visto nele pode causar reações psicológicas indesejadas em pessoas de pouca idade e pode chocar até mesmo adultos acostumados com este tipo de tônica. Não pense que vamos ter aqui um filme de Super-herói comum, como o Homem Aranha saltando de prédios para salvar o dia ou o Aquaman tentando salvar Atlantis. Coringa é uma obra absolutamente diferente e trata de assuntos densos da nossa sociedade.

A história do filme é caracterizada pela centralização no Coringa, neste sentido ela apresenta poucas ligações com personagens do universo do Batman, apenas a família Wayne e a cidade de Gotham são elementos utilizados com relevância. Essa escolha se mostrou acertada em vários pontos, Todd Phillips conseguiu se concentrar em desenvolver um personagem e não um universo inteiro. Um dos pontos mais perigosos da narrativa foi justamente a conexão próxima, até demais, do Coringa com os Wayne.

A narrativa apresenta um Coringa/Arthur Fleck bem diferente do já visto nas HQ’s. Todd apresenta uma visão única do personagem, que até tem alguns elementos de sagas como “A Piada Mortal”, mas nada que leve os quadrinhos muito à sério. Esta versão apresenta um personagem baseado em aspectos reais da nossa sociedade e este é o motivo do medo que o vilão emprega.

O Coringa deste filme apresenta sua risada característica, mas aqui ele sofre de uma patologia chamada afeto pseudobulbar ou labilidade emocional, uma doença real que pode afetar vítimas de traumas físicos ou pessoas com algum problema neurológico, provocando risadas em momentos inoportunos.

Joaquin Phoenix foi espetacular ao saber encontrar o tom certo da atuação (incluso fisicamente, o ator perdeu 20kg para dar vida ao personagem) e Todd Phillips foi espetacular em acertar o tom certo da montagem. A loucura do Coringa é levada às alturas, em certo momento é impossível distinguir o que está na mente de Arthur e o que de fato é real.  A escalada do Coringa te leva a várias reações divergentes com o personagem: Em um ponto a compaixão por uma pessoa que sofre de problemas mentais e é rejeitado pela sociedade sombria de Gotham, em outros pontos o horror de atitudes absolutamente insanas, das quais o personagem é capaz.

A violência neste filme é um ponto extremamente relevante. Ao contrário das explosões mirabolantes do personagem de Heath Ledger ou do caricato Coringa vivido por Jack Nicholson, este coringa leva a violência a sério e as cenas podem chocar em muitos momentos. A loucura é um fator especial, a junção da insanidade do Coringa com a violência que ele é capaz de causar, rende cenas capaz de pregar o espectador na cadeira e soltar um: “wow”.  Vários críticos chegam a elevar o tom sobre o uso da violência neste filme, sempre focando na ideia de que a obra pode “espetacularizar a barbárie” ao invés de dar a devida atenção aos problemas mentais do personagem.

De fato, em alguns momentos o filme pode levar a uma interpretação de que existe certa glamourização da violência, mas também é um soco na cara para dizer: “olha só o estrago que pode ser feito ao colocar uma arma na mão de uma pessoa desequilibrada”. O tom político do filme é bastante difuso neste caso, fica a critério do espectador entender a mensagem passada com tamanha violência. Mas calma gente, ainda existem momentos de desafogo com cenas mais cômicas … só que em um humor, digamos, mais sombrio.

Na parte técnica, Coringa entrega uma direção de arte bastante segura no que faz, a ambientação de Gotham é mais uma vez naquele tom sombrio que estamos acostumados a ver em qualquer obra do universo do Batman e as poucas cores que destoam são mesmo as das máscaras de palhaços e as roupas do Coringa. A fotografia cumpre seu papel com maestria e aliado com um bom ritmo de montagem não deixa o tom do filme cair, acertando quase sempre em passar as mensagens que deseja. Acredito que o Coringa acerta em quase tudo que se propõe, até mesmo quando brinca com a origem do personagem (que gerou a reação de várias cabeças em sinal de negação no cinema) e Joaquim Phoenix apresenta um vilão diferente até mesmo das suas versões nos quadrinhos. Aqui vale a pena lembrar as referências que a fotografia do Todd Phillips, e até mesmo a narrativa, fazem a clássicos como Táxi Driver, Laranja Mecânica e até mesmo Clube da Luta.

Por fim, fica a indicação desse longa que acredito ser um forte candidato ao Oscar e uma salvação para o que parecia um futuro tenebroso para DC nos cinemas. Para lidar com este Coringa, definitivamente um Batman com síndrome de escoteiro não será o suficiente.

NOTA: 5/5

E você? Já assistiu? O que achou do filme e da indicação? Deixe sua opinião nos comentários.

 

Por: Ueslei Sá, comunicólogo Bacharel em Comunicação Social – Radio e TV, graduado em 2016 pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC.