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KAUÃ E IACINA UMA ENCANTADA HISTÓRIA DE AMOR

Gerson Marques é produtor de Cacau e Chocolate e Diretor Presidente da Associação dos Produtores de Chocolates de Origem do Sul da Bahia.

Quando o português Pero Magalhães Gândavo chegou a Lagoa de Itaípe em fevereiro de 1570, ficou completamente extasiado com a beleza do lugar, chamou de “mar de dentro” tamanha era mas águas da lagoa, sua extensão e beleza.

Gândavo estava com Felisberto Lisboa, seu imediato auxiliar, oficial do exército português encarregado de lhe acompanhar, a viagem de Gândavo era uma missão de prospecção a serviço da Coroa de Sebastião I, o objetivo era registrar e relatar a vossa alteza, tudo sobre as terras de Santa Cruz, a mais nova e mais desconhecidades coberta lusitana, o Novo Mundo português.

A Vila de São Jorge dos Ilhéus já era habitada por duas dúzias de portugueses, uns oito padres e cinquenta e dois índios catequizados, foram eles que levaram Gandâvo e Felisberto até a Lagoa que os portugueses já chamavam de Encantada.

A viagem foi em parte a pé e depois em canoa, a lagoa era terra dos índios Tupinambás de comportamento imprevisível, no entanto, amigos dos padres jesuítas, que já andavam por aquelas paragens catequizando os ribeirinhos. Situada ao norte de Ilhéus umas três léguas, existiam na lagoa duas pequenas aldeias, uma com oito ocas e uns cem índios, contando as crianças, que se chamava Patiti, e outra um pouco menor, chamada de Aldeia Pequena, viviam todos da pesca e caça, além dos roçados. Junto aos índios vivia também uma família mestiça, formada por um francês já idoso, que fora deportado e abandonado na costa por um navio corsário, trinta anos antes da chegada de Gândavo, casado com uma índia da nação Botocudo, tinham oito filhos entre eles um cego de nascença de nome Çaaci, moravam em uma choupana fora do núcleo da aldeia, também na margem da Lagoa, eram no entanto, integrado são cotidiano dos demais índios da Aldeia Patiti.

A história que vou contar não está no livro “Tratado da Terra do Brasil, História da Província de Santa Cruz” que Pero Gândavo publicou depois que voltou a Portugal, trata-se do casamento da filha do Cacique da Aldeia Patiti com o filho do Cacique da Aldeia Pequena, me foi contada ao pé de ouvido por gente antiga que morou e morreu na Lagoa, que por sua vez ouviu de outros ainda mais antigos, uma história oral que será escrita pela primeira vez.

Desde criança o índio Çaaci, já apresentava um comportamento diferente, apesar de cego enxergava mais que qualquer um da aldeia, tinha a capacidade de saber onde estavam as pessoas e os bichos mesmo muito distante ou na escuridão da noite, dizia onde estavam os peixes no fundo da lagoa, conversava com as árvores de quem, dizia ele, recebia informações sobre o tempo e a saúde das pessoas, também falava com animais, que em sua presença tinha um comportamento dócil e manso, chamava qualquer ave do céu até sua mão, fui iniciado por um velho pajé ainda muito novo no complexo mundo espiritual dos Tupinambás, apesar de jovem era um curador reconhecido e procurado até pelos brancos, teria espantado os padres jesuítas ao curar um deles, em estado leproso que vivia isolado dos demais há muitos anos, usando somente água.

Alguns dias depois da chegada de Gândavo, uma grande festa de casamento estava marcada, a filha do Cacique Kaluanãda aldeia onde estava o português, Iacina, casaria em dois dias com o filho do Cacique Aruanãda Aldeia Pequena, um jovem guerreiro de nome Cauã.

Era tradição fazer o casamento na aldeia da noiva, uma comitiva com os irmãos da Iacina, buscaria Cauãem sua aldeia, Gândavo pediu para ir junto a eles na travessia de busca do noivo, no dia seguinte partiram logo cedo, a viagem durava meio dia de navegação a remo para ir e mais meio dia para voltar.

Foram recebidos com festa na Aldeia Pequena, comeram peixe e farinha de mandioca e tardaram mais que deveriam para fazer a jornada de volta, no fim da tarde juntaram cinco canoas com o noivo Cauã e seus parentes iniciando a travessia, chegando o início da noite ainda estavam em alto lago quando foram surpreendidos pela mudança do vento, logo as ilhas flutuantes, fenômeno único nessa lagoa, por isso mesma batizada pelos portugueses de Encantada, fechou o caminho das canoas impedindo a viagem, caiu a noite e apesar de muito esforço, não houve como avançar.

Os índios das duas aldeias demonstravam muito medo, falavam o tempo todo de um monstro chamado Arikonta que vivia nas ilhas flutuantes.

A noite escura sem lua tornava tudo mais assustador, já tarde da noite um barulho tenebroso colocou todos em pavorosa situação, um segundo barulho ainda mais próximo revelou o monstro Arikonta com seus gigantescos tentáculos como um povo marinho, uma enorme cabeça de touro com muitos chifres e uma boca pavorosa, avançou no escuro para cima da canoa onde estavam Gândavo e o jovem Cauã, arrancando o noivo de Iacina da canoa e desaparecendo com ele no matagal de ilhas flutuantes, tudo muito rápido e assustador como um trovão.

De sua choupana Çaaci acordou com a nítida imagem de tudo que estava acontecendo, correu para margem da lagoa, pós a mão direita sob à água e provocou uma enorme tempestade, ondas se fizeram do nada agitando toda lagoa, ventos em fúria soprou por todos os lados, as ilhas flutuantes imediatamente se abriram libertando as canoas prisioneiras, assustados puseram-se os remadores em tamanha velocidade a remar que em pouco tempo já chegaram a margem da Aldeia Patiti onde Çaaci os esperava sentado em uma pedra.

Toda a aldeia correu para o local, logo a notícia do desaparecimento de Cauã levado pelo monstro Arikonta chegou aos ouvidos de Iacina, que prostrou-se a chorar um pranto tão sentido que causou profunda comoção nos presentes, Çaaci foi até ela e disse que ele estava vendo seu jovem noivo na barriga do monstro, mas nada podia fazer, a noiva em desespero pediu então a Çaaci para ir ter com seu amado na barriga da fera, todos ficaram assustados e clamaram para que este pedido da jovem índia não fosse aceito, Iacina então implorou ao pai cacique que mandasse Çaaci atender o seu pedido, Kaluanã não aceitou, Iacina então se jogou no lago e, pois a nadar com tamanha fúria que logo se distanciou, todos puseram-se em desespero implorando que voltasse, Çaaci deu dois passos para dentro do lago apontou a mão em direção a Iacina que já ia longe e a transformou em uma sereia, que logo mergulhou desaparecendo no fundo da lagoa.

Ainda hoje, contasse na região que ela habita as profundezas daquela linda lago ajunto a pequena ilha de nome Arigoá, onde, ocasionalmente pode ser vista em noite de lua entoando antigos cantos de seu povo que também já desapareceu.

Gândavo e Felisberto ainda ficaram por ali alguns dias, em seu livro publicado em 1577 em Lisboa, o escritor português relata a existência de tubarões, peixe boi e outros monstros na Lagoa Encantada, mas nada diz sobre Çaaci, Iacina e Cauã.

3 respostas para “KAUÃ E IACINA UMA ENCANTADA HISTÓRIA DE AMOR”

  • Neide Moura says:

    Adorei!

  • Muito bom, Gerson. Eu sou fascinado pelas lendas da Lagoa. Você certamente assistiu ao nosso espetáculo: Lendas da Lagoa Encantada. Eu escrevi e Tânia Barbosa dirigiu. O espetáculo era lindo, especialmente as músicas de Elielton Cabeça a partir das letras que escrevi. Esta abaixo é a letra da música da Iara ou a Mãe-D’água, que agora sei, é a música de Iacina.

    Sereia da água doce

    Foi bem aqui, na Pedra da Arigoa
    que meu canto se fez ouvir,
    pela primeira vez,
    nos ouvidos do pescador.

    Oh! Sereia! Sereia da água doce!

    Quando a luz que alumia meus olhos
    toca os olhos do homem bom,
    meu canto é canção de ninar,
    segue a pescaria com sorte, o pescador.

    Oh! Sereia! Sereia da água doce!

    Mas quando a luz dos meus olhos
    atinge os olhos de um homem mal,
    o meu encanto o domina,
    maldade desaparece em águas profundas

    Oh! Sereia! Sereia da água doce!

    Vem! Quero te levar ao fundo da Lagoa,
    bem no fundo da Lagoa,
    com meu canto e encanto
    vou te levar na Pedra da Arigoa.

  • Gerson says:

    Olá Romualdo que legal amigo, o poema é lindo é a cara de Iacina, já posso dizer que tenho uma paceria com você, uma honra pra mim.

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