Matéria publicada na edição 30 da Revista [B+]

Banda se apresentará em festival internacional. Foto: Luciano Oliveira

Banda se apresentará em festival internacional. Foto: Luciano Oliveira.

Os principais traços de formação de OQuadro foram criados ainda na década de 1990, no município de Ilhéus, sul da Bahia. Ganhou cores, tons e texturas, no entanto, a partir de 2001, quando a mistura de gêneros da música negra e as letras de protestos preencheram a tela com maior destreza. O grupo, que gravou o primeiro CD em 2012, com parcerias de Guilherme Arantes e a Mc paulista Lurdez da Luz, subirá, neste mês, no palco dinamarquês do Roskilde Festival 2015. O baixista Ricardo Santana, conhecido como Ricô, conta sobre o convite para o festival e a forte ligação que a banda tem com as artes.

Vocês vão tocar no Roskilde Festival 2015, que também terá atrações como o ex-beatle Paul McCartney e o músico e produtor Pharrell Williams. Como a banda se encaixou na programação dinamarquesa?

A gente foi honradamente convidado pelo curador do festival (Peter Hvalkof) para participar. Não foi nada de a gente ir atrás. Ele teve acesso ao nosso disco e fez a proposta. Um megafestival desse, com referência mundial? Claro que a gente queria estar dentro.

OQuadro traz referência do cotidiano baiano nas letras. Na música “Tá Amarrado”, por exemplo, vocês falam sobre intolerância com as religiões de raiz africana. Qual a importância de levar esse discurso para fora?

Nossas músicas falam de diversas crônicas da nossa realidade e acredito que as religiões de origem africana já têm seu espaço mundo afora. A gente não fica muito preso aos clichês e fala de coisas que realmente acreditamos, vivemos e vemos e é isso que faz as pessoas refletirem. Não precisamos reafirmar muita coisa da Bahia porque já somos baianos, somos negros. Nosso som, postura e conversa já mostram tudo isso e não queremos ficar presos ao passado.

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Então vocês acham que não há mais intolerância com as religiões de raiz africana?

Sim, com certeza, infelizmente, ainda existe. Por esse lado, nosso discurso serve para alertar, informar e educar.

Não é a primeira vez que vocês se apresentam em um festival estrangeiro. A identificação com as letras é prejudicada por conta da diferença linguística?

É, tocamos, em 2003, na Inglaterra, País de Gales… Na verdade, a receptividade chega primeiro com a batida da música. As pessoas se identificam com o groove independente da letra e dançam porque o som é bom. Tem também o diálogo durante e depois do show, que faz com que as pessoas saibam que estamos falando coisa séria. Além disso, OQuadro comunica de uma forma diferente que vai além das músicas.

Como é feita essa comunicação além das músicas?

Através das artes. A capa do nosso primeiro disco, por exemplo, foi feita por dois artistas plásticos do coletivo Filme Forte Records – Izolag Armeidah e Ananda Nahu – para identificar essa nossa paixão. A gente se inspira muito na arte negra e contemporânea. Gostamos de Tarantino, (Jean Michael) Basquiat…

E de que forma essas referências são apresentadas ao público nos shows?

Queremos utilizar projeções baseadas em arte e fazer vídeos sobre o que acontece no dia a dia, o que vemos nos jornais como, por exemplo, a revolta dos professores por salário melhor, a revolta de quem quer terra para morar. Vamos utilizar essas informações para dar o quadro geral do que rola e fazer exposições durante os shows. Estamos aqui para aprender, mas não deixamos de achar que o nosso trabalho é uma nova leitura do cenário nacional de rap.