JÚLIO GOMES
Julio Cezar de Oliveira Gomes é professor, graduado em História; e advogado, graduado em Direito, ambos pela UESC .

Julio Cezar de Oliveira Gomes é professor, graduado em História; e advogado, graduado em Direito, ambos pela UESC.

Nos dias 17, 18 e 19 de março o ensino público de primeiro e segundo grau estará em greve, promovida pela CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, em todo o Brasil.
A ação da CNTE visa, segundo consta de sua convocação, exigir o cumprimento da Lei do Piso do Magistério; estabelecimento de plano de carreira e fixação nacional da jornada de trabalho dos professores; garantir o investimento dos royalties do petróleo na valorização da Educação; votação imediata do PNE – Plano Nacional de Educação, pelo Congresso Nacional; firmar posição contra a proposta dos governadores dos estados, de reajustes para o magistério abaixo do estabelecido pela Lei do Piso; e destinação de 10% do PIB para a Educação Pública.
Sem dúvida, as propostas da CNTE são justas, e se aprovadas poderiam proporcionar um salto qualitativo na educação brasileira, tão desvalorizada e de desempenho tão pífio, sobretudo na rede pública de ensino básico.
Poderia ainda, ao valorizar economicamente o magistério, impedir que a Educação continue a perder seus melhores profissionais para outros setores da economia, e incentivar aos jovens para ingressar nos cursos de nível superior voltados para a docência, hoje tão desprestigiados.
Em busca de tais objetivos, sacrificaremos três dias de aula, e conforme o vício dos professores, pais e alunos brasileiros, o faremos com a semana quase toda, pois após três dias sem funcionar a quinta e sexta-feira (dias 20 e 21) terão aula em um injustificável ritmo de “enforcamento”, de “feriadão”, tão vergonhoso, mas tão ao gosto de nosso povo.
Não há como ser contra a paralização da CNTE. Se com greves e reivindicações as lutas sociais não avançam muito, sem elas caem na mais completa ineficácia.
Por outro lado, também não há como não lamentar a perda de quase uma semana sem aulas, em um ano que já será prejudicado por uma absurda e injustificável paralização do ensino público e privado entre os dias 12 de junho e 13 de julho – desta vez promovida pelo Governo Federal, pelo menos, nas cidades sedes dos jogos – por força da Copa do Mundo. Afinal, que importância tem a educação de nossos jovens diante deste torneio de futebol?
Fico a pensar em nós brasileiros, como nós somos, pensamos e agimos. Nós nos mobilizamos para o Carnaval, para o desfile das escolas de samba, para comprar os abadás mais caros para os blocos de trio elétrico. Nos mobilizamos também para dar algo em torno de 150 milhões de votos para decidir quem ganhará o BBB, como fizemos em 2010, quebrando o recorde mundial em votações deste gênero de programa; Nos mobilizamos para a copa do mundo, para assistir ao último capítulo da novela das nove da Rede Globo e para outras coisas do mesmo gênero.
Entretanto, somos muito frequentemente incapazes de nos mobilizarmos para resolvermos os problemas voltados para a educação e para a saúde, para a falta de cumprimento às leis de nosso país, para a falta de respeito com idosos e crianças, e não estamos nem aí se um jovem tenente da PM foi o quarto policial a ser assassinado pelo crime organizado somente este ano, em uma única UPP situada no Rio de Janeiro, como se o tráfico e seu rastro de crimes e tragédias já não estivessem presentes em todas as regiões do Brasil.
Me parece que a questão não é tanto o que nos mobiliza, pois temos direito a festejar, brincar e ser felizes; mas naquilo para o que não nos mobilizamos, como se, imitando avestruzes, enfiássemos a cabeça em um buraco para não vermos os problemas à nossa frente.
Repito que não há como ser contra que os trabalhadores em educação, nacionalmente unificados, façam seus movimentos reivindicatórios, paralisando as aulas por três dias. Entretanto, como a imensa maioria das pessoas não dará a menor importância para tal fato, começo a achar que os problemas de nosso país não estão nos governantes – meros reflexos daquilo que somos, fazemos e pensamos – mas sim em nós, o povo brasileiro.