Por Gabriel Nascimento, professor

gabrielInegavelmente, querendo gregos ou troianos, a base do ENEM é coerente. Mais coerente é seu conteúdo. As questões utilizadas na prova são recolhidas de um banco de questões do qual participam pesquisadores mestres e doutores das mais reconhecidas universidades brasileiras

Aproxima-se a realização ENEM e setores mais conservadores do país começam uma inegável luta contra qualquer aspecto das políticas públicas que sirvam de arcabouço mais progressista para o país.
E, com razão, você deve perguntar: por quê? Uma das razões pode ser a falta de conhecimento teórico-metodológico dos instrumentos em que se baseia o exame. Em primeiro lugar, a prova foi criada para testar o nível do ensino médio no Brasil e na gestão de Fernando Haddad no Ministério da Educação passou também a servir de instrumento de avaliação e seleção para universidades públicas (através do pacto com a autonomia de cada universidade) e privadas (através do PROUNI).
O Exame Nacional do Ensino Médio, antes apenas instrumento de avaliação da qualidade do ensino, tem suas bases fundadas nos princípios da Lei 9.394/96, que define diretrizes e bases da educação nacional, além dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e das Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM). Todos esses documentos são considerados pelos pesquisadores como alguns dos mais progressistas do mundo por combater o obscurantismo na educação, as práticas não-democráticas, além de estimular uma escola reflexiva, voltada à diversidade através da construção da cidadania plena.
Inegavelmente, querendo gregos ou troianos, a base do ENEM é coerente. Mais coerente é seu conteúdo. As questões utilizadas na prova são recolhidas de um banco de questões do qual participam pesquisadores mestres e doutores das mais reconhecidas universidades brasileiras. Para quem não sabe, o site do próprio MEC indica como se dá o processo, sendo que mesma tem enfoque marcado pela avaliação das competências de leitura. Ou seja, a ideia do ENEM é combater o propósito tradicional de questões com respostas que não estão no texto e, portanto, não incentivam a leitura plena do mesmo. Por exemplo, o ENEM não cobra aspectos metalinguísticos da gramática normativa (como os esmos de concordância verbal, tipos de oração, classe de palavras), sendo esse um besteirol amplamente utilizado no vestibular tradicional. As questões do ENEM têm respostas contidas nos textos dados e requerem do participante um leitor atuante, audaz e que leia diferentes tipos de enunciados, discursos com a mesma audácia. Ou seja, há uma marca identificável de apelo ao letramento do sujeito. Não é interessante a um sujeito que entra na universidade saber concordância verbal, mas é interessante identificar diferentes tipologias textuais, além dos mais diversos gêneros textuais e do discurso.

O ENEM rompe com uma cultura arcaica do mundo Ocidental focada na ideia de memorização. As ciências humanas, sociais aplicadas, saúde e vida já puderam dar uma bela resposta nas últimas décadas do século XX alegando que nem há inteligências gerais (porque as inteligências são múltiplas, localizadas e trabalhadas) e nem há super inteligências criadas a partir de um conhecimento isolado como se fosse uma essência que não mais vai se perder. Todo conhecimento se dá em contato com o mundo e sua perpetuação só pode ser entendida pelo mesmo contato. Ou seja, a memorização não indica que o sujeito saiba o conteúdo.
Do ponto de vista social, o ENEM está de acordo com a escola pública. Com toda a tragédia pedagógica que o regime militar causou à mesma, o crescimento da exploração do ensino privado no Brasil, o sucateamento das políticas de distribuição do livro nas escolas (o que se deu com a entrada do capital financeiro internacional), é a primeira vez que, elegendo o ENEM como forma de entrada para a universidade pública, o Brasil age com coerência nesse sentido. A entrada na universidade deve se dar pela discussão programática nacional de que tipo de certame queremos. Não é possível continuar a ter “ilhas de conhecimento”, em que cada universidade crie políticas internas para ela mesma, parecendo que essa instituição não faz parte do conjunto de instituições públicas brasileiras que recebem avaliação todos os anos nos índices de qualidade, produtividade, pesquisa, pós-graduação, ensino, extensão etc. É preciso garantir um debate nacional efetivo e com ENEM é o que teremos.
Portanto, é preciso garantir o ENEM como forma de entrada na universidade para termos coerência direta com os documentos mais progressistas da educação nacional. E as críticas continuarão a existir para podermos melhorar o exame e não para extingui-lo, como é o desejo de alguns que preferem o obscurantismo dos vestibulares tradicionais e vivem por aí reproduzindo baboseiras anticientíficas como “língua correta” e “bom português”, fantasmas vivos de um ensino não sério que deve ser enterrado ainda sobrevivente onde nasceu e que faz parte do que há de mais reacionário no Brasil.